7 de agosto de 2008

Um ano no Rio


Vivo na cidade maravilhosa há um ano. De ma-ra-vi-lho-sas restaram algumas coisas: a paisagem, belíssima, dádiva da natureza; a vocação para o lazer e para a diversão, o tempo ameno no inverno; a maneira mais descolada de as cariocas se vestirem; o pouco tempo que nos resta para shoppings centers; a Zona Sul e seu jeitão de província; a simpatia dos cariocas (que não é uma unanimidade, mas pode ser considerada uma característica); o táxi infinatamente mais barato.

É uma pena, mas a violência transformou a cidade maravilhosa em campo de guerra. Porque não se pode viver alheio e feliz numa cidade que é bonita, mas insegura. Não se pode ignorar o notíciário ou a família que vive ali na esquina.

Digressão:
Saio para almoçar e atravesso todos os dias a mesma rua. Logo depois do sinal (ops, estou me tornando uma carioca!), alojou-se uma família inteira. Obviamente que eles não moram lá. Ma escolheram um lugar estratégico para passarem o dia: na calçada, em frente à faixa de pedestres, e bem ao lado do banco 24 horas. Centenas de pessoas passam por ali diariamente, muitas delas para sacar dinheiro. É a deixa dos pedintes e a intimidação dos pedestres, que não sabem se dão esmola ou passam batido. Alguns ficam com medo, pensam que serão assaltados, e desistem de tirar a grana.

De volta à Terra:
O Rio é assim: repleto de paradoxos (esta foto aí em cima é a vista da minha janela do trabalho).

Como paulista que sou, no sotaque, na alma, no jeito de me vestir, basta falar um "oi" para que todos percebam de onde vim. Alguns confundem com o Sul, acham que meu sotaque é de gaúcha. Logo rio e corrijo: "não, não, sou paulista mesmo". Imediatamente, ouço uma piadinha escrota. É comum que cariocas desdenhem de São Paulo. E eu confesso que, quando cheguei por aqui, não entendia o motivo. Afinal, são eles que possuem as praias mais lindas, as mulheres mais malhadas, a vida que nós - paulistas inclusive - pedimos a Deus. Morar no Rio é o sonho de qualquer um, não é verdade?

Descobri depois que não é bem assim.

Cariocas, alguns, não todos, detestam São Paulo porque para lá se foi todo o poderia econômico do país. Lá existem os melhores empregos. Pelos menos os que pagam melhor. A noite de São Paulo é muito melhor. As opções de casas noturnas, bares, restaurantes... ah, os restaurantes!... são reconhecidamente superiores. Até os cariocas falam isso. Já ouvi inúmeros falando que em São Paulo tem o melhor café, as melhores lojas de roupa, os melhores restaurantes (ah! os restaurantes!).

Meu objetivo não é ficar falando bem de São Paulo e mal do Rio. Nem o oposto. Quero fazer, sim, uma reflexão sobre a brutal diferença entre duas cidades que ficam tão perto. Mas é que o perto e o longe, muitas vezes, dependem do ponto de vista. Quem de olha de perto, às vezes, vê mais longe. Quem vê de longe, quem sabe, enxerga bem de pertinho.

Sou míope, então a minha visão pode ficar embaçada de vez em quando. E sou paulista. Isso também influencia. Por isso, convido os cariocas a me ajudarem a não ser injusta. Convido todos ao debate. Para malhar o cérebro (que o corpo a gente malha na Lagoa Rodrigo de Freitas, ou no Parque do Ibirapuera).

Bem-vindos. Todos.